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Literatura Portuguesa |
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Questão Coimbrã
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Questão Coimbrã A
duas personalidades muito diferentes coube a chefia visível do fermento
coimbrão de revolta: Antero de Quental (v.), o «Príncipe da Mocidade»,
que já se dera a conhecer como poeta com várias obras (Sonetos,
1861, Beatrice, 1863, Fiat
Lux, 1863, e Odes Modernas, 1865) em que tentava harmonizar uma inspiração
sinceramente romântica com o espírito científico, e Teófilo Braga
(v.), que também tinha aparecido no mundo das letras com dois poemas cíclicos
de padrão huguesco (Visão dos
Tempos e Tempestades Sonoras,
1864). O motivo da «Questão» foi aparentemente trivial. Nesse ano de
1865, Pinheiro Chagas (v.), um dos jovens corifeus da roda lisboeta do
cego patriarca literário, publicara o Poema
da Mocidade, ingénua biografia lírica em quatro cantos, típica do
saudosismo ultra-romântico. Castilho, na célebre carta-posfácio
dirigida ao editor do livro, na qual, entre grandes elogios, indigitava o
jovem poeta para uma cadeira de Literatura, introduziu incidentalmente
referências ironicamente adversas a Antero e a Teófilo, aludindo aos «altos»
rumos metafísicos da poesia dos dois «mancebos». A resposta não se fez
esperar, tanto pelo carácter directo do ataque como pelo desejo de polémica
dos novos, impacientes por afirmar em público a sua insubmissão
iconoclasta e por medir forças com o inimigo. Antero lançou um opúsculo,
intitulado Bom-Senso e Bom-Gosto
(1865) – as duas virtudes que Castilho negara aos dois porta-estandartes
dos académicos coimbrões –, no qual, com altiva ironia e com violentíssimos
e sarcásticos desacatos, respondia às palmatoadas do venerando pontífice
das letras oficiais. Os sequazes de Castilho treplicaram com aparatoso
alarde de forças. A batalha estava travada. Os folhetos começaram a
chover dum e doutro lado. Quental arremeteu com novo opúsculo, nesse
mesmo ano, sob o título A Dignidade
das Letras e as Literaturas oficiais. Pela sua parte, Teófilo
replicou ao «déspota do purismo e do léxicon» com outro panfleto, Teocracias
Literárias (1866). O velho árcade não deixou de ter defensores
ilustres. Um deles foi Ramalho Ortigão (v.), que mais tarde se haveria de
integrar plenamente no grupo de Coimbra, mas que nesta altura saiu à liça
como paladino de Castilho em Literatura
de Hoje (1866 ), repreendendo Antero com ásperos adjectivos pelo seu
desrespeito – o que provocou um duelo entre ambos. Note-se, porém, que
nesse folheto Ramalho marcou uma atitude de independência, criticando
também a fuga de Castilho à luta das ideias. Outro combatente das hostes
de Castilho foi Camilo (v.), que, em Vaidades
irritadas e irritantes (1866 ), com o seu temível sarcasmo polémico,
veio atacar a nova geração, – que lhe haveria de dar motivo para
ulteriores refregas. Os panfletos saíram às dezenas, e derivavam mais e
mais para o terreno das diatribes pessoais. A refrega entre os epígonos
do Romantismo velho que agonizava e a juvenil rebelião do Realismo novo
que despontava para a vida prolongou-se pelo ano de 1866. (A bibliografia
dos projécteis desta «batalha» literária, em que intervieram as
figuras mais destacadas das letras nacionais, e que chegou a estender-se
ao Brasil, está recolhida; v. Inocêncio, Dicionário Bibl. Português, VIII, 404-408; T. Braga, Modernas
Ideias na Lit. Port., II, pp. 179-184; Catálogo
da Biblioteca de F. Palha, pp. 166-171; J. de Araújo, in Antero
de Quental. In Memoriam, Apêndice,
pp. X-XV). A
«Questão», embora aparentemente literária, denunciava
incompatibilidades mais profundas. Os jovens universitários de 1865
reagiam contra a falsidade que representavam muitos outros aspectos da
vida nacional, produto da adaptação das formas alienígenas do
liberalismo à velha estrutura tradicional do País. A revolta da mocidade
coimbrã havia de eclodir num movimento político, filosófico e literário,
cuja amplitude ultrapassou talvez a do próprio Romantismo. Este grupo que
se sublevou contra Castilho era o mesmo que, acrescido de personalidades
com tendências paralelas, havia de tratar, em 1871, nas Conferências
Democráticas do Casino (v.), de colocar Portugal a par da actualidade
europeia, ligando-o «com o movimento moderno», estudando «as condições
de transformação política, económica e religiosa da sociedade
portuguesa». Na frase de Le Gentil: «para encontrar uma semelhante
fermentação de ideias em Portugal, seria preciso remontar-se até ao século
de Quinhentos». Da ânsia de renovação cultural dos estudantes
universitários nessa época dá uma boa ideia Eça de Queirós (v.), ao
lembrar a «ardente e fantástica Coimbra» do seu tempo: «Pelos Caminhos
de Ferro que tinham aberto a Península, rompiam cada dia, descendo da
França e da Alemanha (através da França), torrentes de coisas novas,
ideias, sistemas, estéticas, formas, sentimentos, interesses humanitários.
Cada manhã trazia a sua revelação, como um sol que fosse novo. Era
Michelet que surgia, e Hegel, e Vico, e Proudhon; e Hugo tornado profeta e
justiceiro dos Reis; e Balzac com o seu mundo perverso e lânguido; e
Goethe, vasto como um universo; e Poe, e Heine, e creio que já Darwin, e
quantos outros! Naquela geração nervosa, sensível e pálida como a de
Musset (por ter sido talvez como essa concebida durante as guerras civis)
todas estas maravilhas caíam à maneira de achas numa fogueira, fazendo
uma vasta crepitação e uma vasta fumarada !». «Quando o fumo [da Questão]
se dissipou – conta Antero, na sua «Carta
a W Storck» –, o que se viu mais claramente foi que havia em
Portugal um grupo de 16 ou 20 rapazes, que não queriam saber nem da
Academia nem dos Académicos, que já não eram católicos nem monárquicos,
que falavam de Goethe e Hegel como os velhos tinham falado de
Chateaubriand e de Cousin; e de Michelet e Proudhon como os outros de
Guizot e Bastiat; que citavam nomes bárbaros e ciências desconhecidas,
como glótica, filologia, etc.; que inspiravam talvez pouca confiança
pela petulância e pela irreverência, mas que, inquestionavelmente,
tinham talento e estavam de boa fé, e que, em suma, havia a esperar deles
alguma coisa, quando assentassem.
Os factos confirmaram esta impressão; os dez ou doze primeiros nomes da
literatura de hoje saíram (salvo dois ou três) da Escola Coimbrã, ou da
influência dela». E assim é. Hoje, já com a perspectiva que dá a distância
histórica, essa geração surgida à vida pública na famosa «Questão»
avulta como uma das mais brilhantes constelações que a cultura
portuguesa produziu em qualquer época. O carácter regenerador e de revisão
de valores, o afã de reforma do estilo da vida e da literatura do país,
o europeísmo cultural, a preocupação com as raízes históricas da
decadência, fazem dela um antecedente da grande geração espanhola «de
98», que lhe é devedora em muitos aspectos fundamentais – influência
esta que reclama urgente estudo. v. «D.Jaime» e Porto. Guerra
da Cal, Ernesto, DICIONÁRIO DE LITERATURA, 3ª edição, 3º volume,
Porto, Figueirinhas, 1979 |