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Textos sobre o Neoclassicismo
[Neoclassicismo] * [Arcádia Lusitana] * [Princípios Estéticos] * [Iluminismo] * [Crítica ao Barroco]
Com uma estrutura complexa, com decoração rocaille, este palácio apresenta fachadas ao gosto neoclássico, como é o exemplo da colunata de balaustradas. Movimento literário, derivado do espírito
crítico do Iluminismo, que visa à reabilitação e restauração dos géneros, das
formas, das técnicas e da expressão clássicas, que vingaram em Portugal no séc. XVI.
Esta renovação faz-se acompanhar duma severa disciplina estética e dum purismo estreme,
que procura libertar a língua de termos espúrios, restituindo-lhe uma sobriedade
castiça e o rigor de sentido. Os primeiros indícios deste interesse por problemas de
preceptiva literária e linguística aparecem logo no limiar do séc. XVII e vão-se
acentuando progressivamente até ganharem a força de uma corrente contra os excessos e
exageros do barroco, no séc. XVIII. (...) O Neoclassicismo vai actuar, portanto, em dois
sectores capitais: o da doutrinação estética e o da criação literária. O primeiro é
fortemente orientado pelo racionalismo mecanicista, evidenciado no VERDADEIRO MÉTODO DE
ESTUDAR (1746) de Verney e, por ex., nas ENFERMIDADES DA LÍNGUA PORTUGUESA (1759) de
Manuel José de Paiva.
Edifício ecléctico, mas com predomínio da arte neoclássica.
Agremiação ideada em
1756 e fundada no ano seguinte pelos esforços de António Dinis da Cruz e Silva, Manuel
Esteves Negrão e Teotónio Gomes de Carvalho, o primeiro dos quais se encarregou de lhe
dar os estatutos por que se regeu. Tratava-se duma agremiação um tanto semelhante às
academias de literatos que tinham proliferado em Portugal no século anterior, e, como
elas, também para apresentação das produções dos seus sócios e sua crítica, mas com
uma orientação literária antagónica à daquelas, porquanto, ao passo que essas
promoviam o desenvolvimento do barroquismo seiscentista, esta procurava combatê-lo,
seguindo algum tanto as lições dos iluministas portugueses da primeira metade do século
XVIII. Era sua divisa Inutlia truncat,
significando inutlia (coisas inúteis) tudo aquilo que o critério novo considerava
atentatório do bom gosto e dum programa neoclassicista a que se comprometiam os seus
sócios. Para levar a efeito estes propósitos, a Arcádia incluía entre a sua actividade
não só a apreciação, segundo normas de censura muito precisas, das composições
apresentadas, como ainda a discussão de teses de teoria literária comunicadas sob forma
de dissertação por alguns dos seus orientadores. Do grupo dos sócios fizeram parte os
principais poetas desse período: além de Cruz e Silva, P A Correia Carção e Domingos
dos Reis Quita, um polígrafo do didacticismo, Francisco José Freire, e um dramaturgo,
Manuel de Figueiredo, dos quais chegaram até nós, além das respectivas composições
artísticas, algumas das teses que aí teriam defendido. (...) Da análise das obras que
deixaram e das afirmações de teoria que fizeram, conclui-se que, no seu combate ao
barroquismo seiscentista, procuravam uma conciliação entre um regresso às primitivas
normas do classicismo (observação das técnicas nos modelos legados pela Antiguidade ou
nos modernos que bem as tivessem observado) e a orientação racionalista do teorizador
francês Boileau e outros da linha aberta por ele, como certos outros franceses, o
italiano Muratori, o espanhol Luzán, etc. Deste modo, há entre os Árcades uma
tendência para aceitar deles um critério de utilidade na avaliação da obra literária
(aspecto que tinha escapado à teorização de Verney); para determinar alguma limitação
à imitação dos clássicos, considerando sem razão e sem bom gosto a que denominavam
servil; para a adopção duma maior liberdade de movimentos na criação poética pela
libertação da rima. Entretanto, mostram-se ainda demasiadamente presos a preconceitos de
géneros quanto a pormenores de construção teatral ou a questões de estilo, -
manifestando-se já neles a preocupação, que há-de vir a ter mais tarde uma grande
preponderância, dos aspectos filológicos da expressão artística. - Não foi muito
duradoura, ou pelo menos sem incidentes, a vida desta agremiação. A um período de
actividade entusiástica que vai de 1757 a cerca de 1760, seguiram-se períodos
entrecortados de vicissitudes várias (afastamento dos sócios mais devotados, questões
internas, ataque de literatos dissidentes, etc.), durante os quais a sua função se vai
desvirtuando e caindo em franca dissolução, até seu desaparecimento por 1774. Princípios Gerais Estéticos do Arcadismo
Pela palavra ILUMINISMO
designa-se um esforço de renovação cultural, de natureza sobretudo política, realizado
no curso do séc. XVIII, que tinha em vista, por uma actualização de conceitos, de
normas e de técnicas, uma maior eficiência na ordem social, e se subordinava à
concepção nova do progresso humano. A designação provinha, como é óbvio, do
significado de iluminação como esclarecimento, e com isto se prende a designação
daquele século como o das luzes. Os fomentadores desse esforço foram, consequentemente,
os iluministas. O seu aparecimento tem raízes na renovação filosófica operada pelo
racionalismo cartesiano, pelo experimentalismo baconiano, pelo fisicismo newtoniano, pelo
sensorismo lockiano, etc., por um lado; por outro, tem-nas na obra dos renovadores da
ciência jurídica, sobretudo nos construtores do direito das gentes (Puffendorf), etc.).
A confiança que o Iluminismo teve nas bases em que assentou era afinal o resultado a que
se chegara numa discussão célebre, a da QUERELLE DES ANCIENS ET DES MODERNES, quando
vingou a ideia da supremacia da cultura moderna sobre a dos antigos, pela conclusão de
que eram os modernos os depositários das experiências milenárias, enriquecidas pelas
experiências recentíssimas. Os iluministas foram os que procuraram a aplicação para
essa soma de tanta experiência. Crítica à poética cultista e conceptista Quando vejo um poeta destes, que se serve de expressões que nada significam, ou que compõem de sorte que o não entendem, assento que não quis ser entendido, e, em tal caso, procuro fazer-lhe a vontade, e não o leio. Com esta sorte de homens faço o mesmo que com os labirintos e enigmas, etc., os quais nunca me cansei de decifrar. Eles que o fazem, que se divirtam com isso. Se todos assentassem neste princípio, veria V. P. como se mudava a poesia nestes países; porque seriam obrigados os poetas a lerem somente as suas obras; e, assim, ou se desenganariam eles mesmos com o tempo, ou não enganariam os outros; e poder-se-iam achar poetas de algum merecimento; principalmente se chegassem a conhecer quais são os requisitos necessários para a poesia. A razão destes inconvenientes é porque se persuadem comummente que, para ser poeta, basta saber a medida de quatro versos e saber engenhar conceitos esquisitos. Quem se funda nisto não pode saber nada: são necessárias muitas outras notícias. É necessário doutrina e entender bem as matérias que se tratam; é necessária a Filosofia, e saber conhecer bem as acções dos homens, as suas paixões, o seu carácter, para as saber imitar, excitar e adormecer.. Aqui entra novamente a Retórica, que supõe todas aquelas coisas; entra uma pouca de história, para não dizer parvoíces; entra a história da fábula, etc. Tudo isto se mostra manifestamente nos melhores poemas que temos da Antiguidade. (...) Onde, quem não tem estes fundamentos é versejador, mas não poeta; e necessariamente há-de dizer muita parvoíce. (Verney, Luís António (1713-1791), VERDADEIRO MÉTODO DE ESTUDAR, Carta VII) |