O seu farol para navegar pela

Literatura Portuguesa


 

Home

Autor

 

Mensagem

Textos Teóricos


[D' «Os Lusíadas» à «Mensagem»] * [Incursão no Eixo Semântico Ver/Ouvir da Mensagem Pessoana]

[A Mensagem Filosófica da Mensagem]

D' «OS LUSÍADAS» À «MENSAGEM»

Os poemas de Camões e de Fernando Pessoa sobre Portugal situam-se respectivamente no início e na fase terminal do longo processo de dissolução do império. Daí notáveis diferenças, a par de afinidades sensíveis. Ao gizar a Mensagem, não só Fernando Pessoa tinha Os Lusíadas no âmbito das suas referências culturais como nele desembocavam os rios subterrâneos duma Weltanschauung e duma mitologia colectivas vindas de Camões e do humanismo quinhentista.

Ambos se mostram impregnados duma concepção mística e missionária da História portuguesa (talvez seja melhor dizer missionante, para evitar equívocos). D. Sebastião, n' Os Lusíadas, é um enviado de Deus incumbido de alargar a Cristandade: «Vós, ó novo temor da Maura lança, / Maravilha fatal da nossa idade, / Dada ao mundo por Deus, que todo o mande, / Para do mundo a Deus dar parte grande» (I, 6). Na Mensagem, Portugal é um instrumento de Deus, a História pátria obedece a um plano oculto, os heróis cumprem um destino que os ultrapassa: «Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal / A mão que ergueu o facho que luziu, / Foi Deus a alma e o corpo de Portugal / Da mão que o conduziu».

Se, n' Os Lusíadas, o nosso país é «qual cume da cabeça / Da Europa», na Mensagem, em descrição semelhante, Portugal é o seu rosto, e a diferença reside na personificação da Europa, figura feminina, de «olhos negros», «românticos cabelos», o rosto apoiado na mão direita, atitude estática, pensativa. Haverá aqui sugestões do célebre soneto de Unamuno dedicado a Portugal, aquele que começa «Del Atlántico mar en las orillas»; também o Portugal de Unamuno está simbolizado numa mulher que, descalça, na praia, em frente do Atlântico, olha absorta em nostalgia e esperança:

Dice de luengas tierras y de azares

mientras ella sus piés en las espumas

bañando sueña en el fatal imperio,

que se le húndió en los tenebrosos mares;

y mira como entre agoreras brumas

se alza Don Sebastian, rey del misterio1.

Tanto Camões como Pessoa, cantores da pátria, são poetas da ausência. Poetas do que foi ou do que poderá vir a ser. Dum amor que ou se refugia na memória ou, revigorado, se traduz na vibração de um apelo. Mas as situações divergem, um intervalo multissecular tinha de separá-los. No Camões épico predomina o elemento viril - a viagem, a aventura, o risco. Tradicionalmente, a mulher é a que fica, esperando, imóvel, na felicidade e no sonho do regresso: como Pessoa e as figuras em que se desdobra, de olhos fitos no indefinido. Homem de acção, e não só de inteligência, Camões ainda conheceu o império no concreto da sua grandeza e das suas misérias, era-lhe fácil ainda ter esperança, o D. Sebastião a quem se dirige é um jovem de carne e osso, vale a pena mostrar-se, exibir os seus préstimos, para que o Rei o distinga, confie nele, se lance na conquista do Norte de África levando-o consigo. Outro império terreno ainda parece possível, «como a pressaga mente vaticina», o próprio Velho do Restelo sanciona a aventura, e Camões prepara-se para cantar a nova empresa. O D. Sebastião da Mensagem, elaborado longamente pelo sebastianismo e pela humilhação, esse é o Encoberto, o Desejado, uma sombra, um mito. Pessoa sobrevive na aridez dos «dias vácuos», já lhe faltam razões para acreditar, o seu desejo está no limite, calcinado pela espera de quatro séculos. Refaz o trajecto camoniano da evocação para a invocação. Mas, perante o Rei ausente, que talvez nunca mais regresse da sua ilha encantada, é como se fosse o menino órfão, abandonado, que, na desolação da sua própria intimidade, dirige à mãe uma derradeira súplica: «Screvo meu livro à beira-mágoa. / Meu coração não tem que ter. // Ah, quanto quererás, voltando, / Fazer minha esperança amor? / Da névoa e da saudade quando? / Quando, meu Sonho e meu Senhor?» (Terceiro d' «Os Avisos»). O seu enorme anseio tornou-se insuportável, só pela palavra poética ilude o silêncio, o vazio. Em Camões, põem-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objecto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia, e daí uma concepção diferente de heroísmo. Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem, ou neles se desdobra, num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica definível pela decepção do real, pelo anelo absoluto, por uma loucura consciente, pela busca do que não existe, pela demanda que só tem finalidade em si própria, porque atingir é estagnar, ser vencido. Esta, na Mensagem, a lição do Encoberto. No fim de contas, a Mensagem, onde os elementos épicos surgem filtrados, transfigurados, pela contemplação lírica, não se situa muito longe do «clima» d' O Marinheiro, «drama estático», onde a Segunda Veladora nos fala do marinheiro que se perdeu numa ilha remota: «Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido». Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa inventou uma razão de ser, um destino, fugindo à angústia dum quotidiano absurdo, genialmente expresso por ele e por Álvaro de Campos.

Se continuássemos à procura de pontos de contacto entre Camões e Fernando Pessoa, ainda poderíamos registar a sua capacidade e preocupação arquitectónicas. Jorge de Sena valorizou «o extraordinário equilíbrio construtivo que, em Os Lusíadas, encontramos, seja qual for o aspecto por que examinemos o poema»2. Por seu turno, os textos que compõem a Mensagem distribuem-se em grupos e subgrupos, obedecendo a um plano cuidadosamente estabelecido. Aqui a diferença está no facto de Os Lusíadas serem, pela forma, que não só pela substância, uma epopeia clássica, narração onde se enlaçam a viagem de Vasco da Gama, a comédia dos deuses e a História de Portugal, mediante alternâncias e discursos dentro do discurso, uns retrospectivos, outros prospectivos, enquanto a Mensagem integra, como se sabe, 44 poesias breves, datadas de várias épocas e arrumadas em três partes principais: «Brasão», «Mar Português» e «O Encoberto». A primeira e a terceira partes ainda estão subdivididas: a primeira em «Os Campos», «Os Castelos», «As Quinas», «A Coroa» e «O Timbre», reproduzindo assim os elementos da bandeira nacional; a terceira os «Símbolos», «Os Avisos» e «Os Tempos». Da face interna, embelemática, desta arquitectura, aliás de sentido ocultista, como neste Congresso mostrou Helder Macedo, infere-se um carácter menos narrativo e mais interpretativo, mais cerebral, que d' Os Lusíadas. É certo que já no poema camoniano há uma tendência abstractizante, livresca, assinalada por António José Saraiva quando escreve que nele a ideia de pátria é «uma noção abstracta, fora da história», e os heróis históricos se reduzem a «puras abstracções» ou «medalhões convencionais». «Precisamos de subir ao Olimpo - observa A. J. Saraiva - para encontrar corpos vivos e reais banhados pela luz e capazes de movimento: no mundo histórico há somente sombras e abstracções»3. Mesmo descontando uma ponta de exagero, teremos aqui outra afinidade entre Camões e Pessoa. Este, porém, leva o cerebralismo muito mais longe. Possui aquilo a que Cesare Pavese chamava «o senso heráldico», isto é, a faculdade de ver símbolos em tudo. Os heróis da galeria da Mensagem funcionam, com efeito, como símbolos, elos duma trajectória cujo sentido Pessoa se propõe desvelar até onde o permite o olhar visionário. O assunto da Mensagem não são os portugueses ou eventos concretos, mas a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. Em fragmento recolhido nas Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Pessoa censurava a Os Lusíadas a falta dum pensamento. Pois na Mensagem é a redução a um pensamento que descarna, espectraliza as personagens da História nacional.

Tanto Camões como Pessoa usam o processo da descrição sucessiva, fragmentária, de figuras-padrão. Nos discursos de Vasco da Gama esta técnica verifica-se quer na «explicação» das bandeiras perante o Catual quer no relato da História de Portugal destinado ao Rei de Melinde. Os retratos (por vezes auto-retratos) morais da Mensagem filiam-se no epigrama ou inscrição tumular dos clássicos (que Pessoa, aliás, cultivou nas Inscriptions). Observemos, por exemplo, a figura de Viriato no poema camoniano: «Este que vês, pastor já foi de gado; / Viriato sabemos que se chama, / Destro na lança mais que no cajado; / Injuriada tem de Roma a fama, / Vencedor invencível, afamado: / Não têm com ele, não, nem ter puderam / O primor que com Pirro já tiveram» (VIII, 6). E ponhamos, em confronto, a composição intitulada «Viriato» na Mensagem:

«Se a alma que sente e faz conhece

Só porque lembra o que esqueceu,

Vivemos, raça, porque houvesse

Memória em nós do instinto teu.

Nação porque reincarnaste,

Povo porque ressuscitou

Ou tu, ou o de que eras a haste -

Assim se Portugal formou.

Teu ser é como aquela fria

Luz que precede a madrugada,

E é já o ir a haver o dia

Na antemanhã, confuso nada.»

Em Camões, temos tão-só a descrição laudatória; em Pessoa, Viriato não é já um herói confinado no seu tempo, encarna um momento da vida de uma nação, o momento da gestação latente; prefigura o que havia de vir, é o sinal dum plano que tinha de cumprir-se. O indivíduo apaga-se em favor do ente metafísico chamado Portugal. Os elementos descritivos e narrativos ficam obliterados.

Algo semelhante ocorre no tratamento doutra personagem: o Rei Dom Dinis. Camões narra, em três oitavas, o que nós hoje aprendemos na escola: o seu reinado foi pacífico e próspero, fundou a Universidade, que depois transferiu para Coimbra, promulgou novas leis, reformou o país «Com edifícios grandes e altos muros» (III, 96-98). Falta qualquer alusão a ter mandado semear o pinhal de Leiria. Pelo contrário, na Mensagem é este o facto posto em relevo pelo seu valor simbólico: Dom Dinis surge como «plantador de naus a haver»; encarna outro momento da história secreta de Portugal, é também o instrumento duma vontade transcendente, prepara de longe o Império, ouve, de noite, enquanto escreve um cantar, o «o rumor dos pinhais que, como um trigo / De Império, ondulam sem se poder ver».

Sem dúvida, na segunda parte da Mensagem, «Mar Português», perpassa um sopro épico, exalta-se o esforço heróico dos Portugueses no domínio dos mares, Pessoa dá, por vezes, a réplica a Os Lusíadas. «O Mostrengo», do mesmo modo que o Adamastor, opõe à hostilidade bravia da Natureza a energia indómita dos Portugueses: «Sou um povo que quer o mar que é teu» - diz ao Mostrengo o homem do leme. Na Mensagem retoma-se, embora em diferente registo, o tópico da vantagem que levam os Portugueses aos navegadores da Antiguidade: «Que o mar com fim será grego ou romano; / O mar sem fim é português». E, como n' Os Lusíadas, não se esconde que o reverso da vitória são as lágrimas: a épica integra em claro-escuro a história trágico-marítima: a Mensagem é também um livro-síntese: «Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!» Mas a perspectiva mudou. Austero, absorto, Pessoa não canta a expansão terrena, menos ainda a guerra contra os Infiéis. Não é católica apostólica romana a sua inspiração. O emprego do singular Deus, com maiúscula, imposto pela matéria da obra, não vale mais, como prova de convicção pessoal, que o emprego do plural deuses em Ricardo Reis. A atitude típica dos heróis da Mensagem é contemplativa e expectante: olham o indefinido, concentram-se na febre do além que o poeta encarna nos versos admiráveis de «A Noite»: «Com fixos olhos rasos de ânsia / Fitando a proibida azul distância». Depressa esta atitude significa uma ânsia metafísica, a busca duma Índia que não há. A primeira grande missão cometida por Deus a Portugal, desvendar o mundo, chegou ao seu termo: «Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez» - diz Pessoa em «O Infante». Então qual o destino nacional que vem anunciar? Que sentido tem o verso «Senhor, falta cumprir-se Portugal»? A inspiração da Mensagem, como foi lembrado, é ocultista, e o Império entrevisto no futuro uma aventura do espírito, viagem sem fronteiras ou limitações movida pelo amor do diverso e uma constante inquietação. Quando muito (a fala sibilina deixa supô-lo) um império da língua portuguesa, superior por natureza ao império terreno, «obscuro e carnal anterremedo» que o tempo destruiu. Na terceira parte do livro, o lema «Pax in excelsis» e a despedida, «Valete, Fratres», sugerem um projecto de fraternidade universal entre os homens. Talvez o que se aponta seja, na verdade, a utopia, e por isso o elogio do herói, ao contrário do que sucede n' Os Lusíadas, redunda no elogio da «loucura», - essa loucura de sinal positivo sem a qual o homem não passa de «besta sadia», essa loucura que nos salva da «metade de nada» em que viver é morrer.

Em contraste com o realismo d' Os Lusíadas (ou do que realista em Camões se pretende), a Mensagem reage pela altiva rejeição a um «real» oco, absurdo, intolerável, propondo-nos em seu lugar a única coisa que vale a pena: o imaginário. Quem não soube - ou não quis - entender a Mensagem ignorou esta diferença essencial; nem soube captar a ironia imanente no intertexto pessoano (compare-se o optimismo voluntário do poema, incluso na profecia, embora marginada pela dúvida, com o pessimismo total da «Elegia na Sombra», escrita uns seis meses depois da publicação do livro, precisamente em 2-VI-1935)4. Uma vez mais, o poeta se contradisse, ou disse o que estava latente no não-dito. Resta saber até que ponto o imaginário é susceptível de transformar o leitor enquanto homem e «lusíada, coitado», e em que medida o projecto de Pessoa, vate, cantor de mitos, visava além do simples, conquanto nobre e apaixonado, divertimento estético. Porque esta é, em certa perspectiva, a dupla face de Pessoa, tal como tem ressaltado das comunicações aqui apresentadas.

 NOTAS:

1 - Em Os Poetas Lusíadas (Porto, 1919, pp. 269-270), Pascoaes transcreve o soneto, que considera o mais perfeito retrato da pátria portuguesa.

2 - In A Estrutura de «Os Lusíadas», Lisboa, 1970, p. 127.

3 - Luís de Camões, Lisboa, 1959, p. 156.

4 - In Novas Poesias Inéditas, Lisboa, 1973, pp. 125-131. Como remate, um «nada vale a pena».

Coelho, Jacinto do Prado, in ACTAS DO 1º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Brasília Editora - Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1978

topo


INCURSÃO NO EIXO SEMÂNTICO VER/OUVIR DA MENSAGEM PESSOANA

A imagem da Europa - designada pela acção de fitar e pelos olhos gregos - no primeiro texto da Mensagem; - a constatação estatística de que predominam ali as unidades linguísticas da esfera semântica da vista; - a possibilidade de receber a Mensagem numa interpretação mistagónica, baseada no desvendar, no rasgar o véu como momento iniciático supremo justificam uma leitura da obra em chave «visual-auditiva».

Os signos linguísticos da esfera semântica da vista dominam nitidamente, de ponto de vista quantitativo, os signos relacionados com o ouvido.

No primeiro poema, Os Castelos, «A Europa jaz FITANDO»; tem «OLHOS gregos» e «OLHAR esfíngico e fatal»; o verbo FITAR aparece quatro vezes.

Ao Conde D. Henrique se lhe diz: «teu OLHAR desce».

D. Fernando, Infante de Portugal autodefine-se: «Deus (...) doirou-me a fronte com o OLHAR».

Nun' Álvares Pereira deve erguer a espada «para a estrada se VER».

No poema O Infante do ciclo Mar Português «VIU-se a terra inteira, de repente».

Em Horizonte, «o sonho é VER as formas invisíveis».

O Mostrengo quer morrer «onde nunca ninguém me VISSE».

Em Ascensão de Vasco da Gama, o pastor «VÊ (...) o céu abrir o abismo à alma do Argonauta».

N' A Última Nau é o próprio eu poético que diz: «VEJO entre a cerração teu vulto baço».

O Encoberto formula a pergunta: «Que símbolo divino / Traz o dia já VISTO?».

Bandarra sonha com «o Império por Deus mesmo VISTO».

No poema sem título Screvo meu livro à beira-mágoa se nos diz: «tenho meus OLHOS quentes de água».

O cavaleiro que quer navegar no poema Noite está visto: «E quando o VÊEM, VÊEM a figura / Da febre e da amargura / Com fixos OLHOS rasos de ânsia / FITANDO a proibida azul distância».

A ilha de Calma «para a VISTA não existe» e «à VISTA o mar é sozinho».

Os olhos, a vista e o olhar aparecem associados à luz e à espada.

O ser de Viriato é visto como luz, «aquela fria / LUZ que precede a madrugada».

Antes de lhe doirar a fronte com o olhar, Deus dá ao Infante D. Fernando «o seu GLÁDIO».

Nun' Álvares Pereira tem de erguer a ESPADA para iluminar o caminho. A luz é o principal atributo da espada, essencializada na verticalidade, tal como resulta d' O Desejado:  «Mestre da Paz, ERGUE seu GLÁDIO ungido / Excalibur do Fim, em jeito tal / Que sua LUZ ao mundo dividido / Revele o Santo Graal»1.

Luz, verticalidade e vista reunem-se no verbo REVELAR. O verbo DESVENDAR e o seu correspondente RASGAR O VÉU aparecem com frequência, sobretudo na segunda parte do livro, em poemas como D. João Segundo, Horizonte, Ocidente, Vasco da Gama, Antemahã.

Mas o poema D. Dinis está ainda incluído na esfera semântica do ouvido. «Um SILÊNCIO MÚRMURO» acompanha o herói, «o RUMOR dos pinhais», «um arroio a CANTAR», «a FALA dos pinhais, MARULHO obscuro», «o SOM presente desse mar futuro» e «a VOZ da terra ansiando pelo mar». Dois poemas ainda da Mensagem compreendem fortes sensações auditivas. São os poemas sobre as Ilhas Afortunadas. No primeiro, do ciclo Os Símbolos, as ilhas transmitem sinais auditivos que só podem ser interceptados no sono (ou por um ouvido interior), mas ao despertar, a ilha (cuja presença está marcada só pela voz, pelo sonido) desaparece, a voz cala-se, fica o mar, só. A recorrência do vocabulário auditivo é: VOZ - 4 vezes; SOM - 1 vez; FALAR - 1; CALAR - 2; ESCUTAR - 2; OUVIR - 2; DIZER - 1, num poema de três quadras. No segundo poema sobre a ilha, Calma, da última parte do último ciclo do livro, a presença da ilha vem a ser comunicada pelo ruído das ondas que CANTAM, pelo «SOM de o mar praiar» (o verbo PRAIAR sugere uma forte e concentrada imagem visual do mar que se torna praia). A ilha «nos OUVIDOS persiste», mas «para a VISTA não existe», «à VISTA o mar é sozinho». Neste poema, o ouvido está já para ser «engolido» pela vista, o peso dos dois sentidos encontra-se pelo menos equilibrado. Nos restantes poemas, o ouvido aparece só na vizinhança da vista, o vocabulário relacionado com os dois sentidos coexiste.

Em Horizonte, do outro lado «da abstracta linha», «abre-se a terra em SONS e CORES»; em Padrão, «a Cruz ao alto DIZ» - mas o verbo «dizer» não se refere à fala, à voz, mas à descodificação dum símbolo visual. O Mostrengo pergunta «de quem [são] as quilhas que VEJO e OUÇO?»; em Fernão de Magalhães fala-se-nos duma dança - som e imagem visual portanto - na qual o que se vê é o termo marcado. O ouvido aparece de signo negativo, como silêncio, na Ascensão de Vasco da Gama («surge um SILÊNCIO») e em Prece: «Restam-nos hoje, no SILÊNCIO hostil / o mar universal e a saudade». Ou relacionado com o choro e com as lágrimas em Mar Português e em Nevoeiro («Que ânsia distante perto CHORA?»). Em Tormenta, o ruído da tempestade concentra-se no relâmpago, associação de visualidade e audibilidade: o vento ruge, o mar estruge, o RELÂMPAGO, farol de Deus (...) brilha.

Voltando à figura de D. Dinis, veremosque ela encontra o parceiro na imagem do Padre António Vieira. Enquanto o primeiro escreve, invadido pelos sons de que tínhamos falado, o segundo é «imperador da língua portuguesa», som e imagem visual, com a prevalência da língua escrita. O Quinto Império é representado também por uma imagem visual: o teatro. «O ser que sonhou» chama a atenção para o facto de o Quinto Império ser metáfora para a evolução espiritual: o poeta ateu que é Fernando Pessoa, tal como se deixa conhecer pelos textos teóricos, vai colocar à frente da terceira e última parte da Mensagem o motto: Pax in excelsis, paz nos céus, paz no transcendente.

Resumindo:

Nenhuma voz vem nomerada no livro. Uma única vez aparece a palavra cor. As cores, se existem, são só sugeridas pelos envios às cores e aos metais do brasão, ao mar, às árvores, às flores, aos pássaros e à terra.

A esfera semântica da vista compreende, na Mensagem, referências a breu, céu e ao órgão da vista (olhos, olhar, ver, desvendar).

Fora dos dois poemas baseados na acumulação de sensações auditivas, a vista aparece sempre junto do ouvido, designado por palavras como: voz, ouvir, falar, chorar, etc.

Ao analisar os dois poemas em que as sensações auditivas e o léxico com respeito ao ouvido predominam, descobrimos que, apesar desta predominância quantitativa, o acento cai na visualidade. N' Ilhas Afortunadas, após a acumulação das sensações auditivas que sugerem a presença da ilha, a passagem do sono para o estado de vigília identifica-se com a passagem do auditivo para o visual: a voz cala e fica o mar. - imagem visual. As vozes, os sonidos,aparecem como definindo um estado de pré-consciência, confuso, selectando o paradigma do vago, incerto, sono, sonho, irrealidade, e a imagem visual vem a ser o sinal da passagem para a realidade, o acto de des-irrealizar a verdade.

Em D. Dinis, os sons são também sugestões vagas, impressões de formas e cores (os navios, os pinhais, o oceano, o Império), de facto, avisos, prenúncios. O mundo futuro anuncia-se por sons, o som é o sinal dum mundo virtual que poderia ser actualizado pela visualização.

Em D. Dinis, em António Vieira e no poema sem título, fala-se da escrita. D. Dinis escreve e desta maneira dá forma a uma coisa ainda inexistente. A escrita aparece aqui como uma possibilidade de reunir o que ainda não é com o que será. Escrever aparece como a própria via, como o método - em sentido cartesiano - da passagem do não-ser para o ser, do gesto ao acto. A escrita institui-se mais uma vez como diferença (em sentido derridiano)2, como materialização da oposição entre naus e naus a haver. António Vieira, o autor da História do Futuro, é um imperador da língua portuguesa porque é um céu também, um céu definido em Mar Português: «Deus ao mar o perigo e o abismo deu, / Mas nele é que espelhou o céu». Assim como o céu reflecte o mar, como arquétipo platónico, ou como matriz das formas do futuro, assim a língua é a matriz das acções, da existência humana na terra: tudo o que se passa, passa-se na língua. Na mesma ordem, o poema sem título - que parece a expressão da angústia e da indecisão perante o futuro, com as suas repetidas perguntas, iniciado por uma frase afirmativa aparentemente sem relação com o resto - exprime, de facto, a mesma ideia do LIVRO, da escrita como mensagem suprema e como acto de instituição da realidade: o poeta designa-se a si próprio como sujeito da mensagem, ao livro como objecto e ao acto de escrever como predicado, em todas as três hipóstases do modelo actancial de Greimas. O Verbo (escrever=expressão=criação) como predicado da Mensagem é: um poder, exercitado como sujeito (a nação portuguesa, o espírito universal, a humanidade na sua essencialidade ou, simplesmente, o eu poético), um poder exercitado sobre um objecto (a história=o tempo, o destino, a matriz linguística, o informal, ou, simplesmente, o livro ainda não escrito); uma ciência (um conhecimento transmitido por um destinador - que pode ser, mais uma vez, a história, a tradição cultural ou o símbolo linguístico - para um destinatário (o livro e os seus substitutos); e uma vontade (escrever o livro, produzir a mensagem, é como que, um gesto de derrota, de submissão de tudo o que se tem escrito ou feito até então, funcionando a intertextualidade como adjuvante e oponente).

Voltando agora ao eixo semântico ver/ouvir em que nos propusemos circular, diríamos que a mesma relação entre os dois pólos encontrada n' Ilhas Afortunadas existe em todas as situações nas quais aparecem os dois termos com os seus paradigmas, a existência de um implicando a do outro, mesmo quando não está nomeado. Qualquer dos poemas pode ser interpretado neste eixo semântico no qual VER é o signo positivo, ligado ao desvendar, ao real-izar (passagem para o real), e OUVIR o termo negativo, ligado ao informal, à escuridão, num relacionamento necessariamente dialéctico, assim como a noite não é só negação do dia, mas também ventre matricial, a condição para que o dia nasça. eis, por exemplo, o poema Antemahã, composto de duas estrofes de 7 versos cada uma. O poeta retoma o motivo do monstro d' O Mostrengo. Aí o monstro tinha sido vencido e aparecia só para saber por quem. A visualidade era dominante. Em Antemahã, o monstro voltou da escuridão, do nada, para onde tinha sido expulso, anulando assim a derrota anterior, transferindo novamente a realidade para o sonho e para o informal: «Quem é que dorme a lembrar / Que desvendou o Segundo Mundo, / Nem o Terceiro quer desvendar?». Nada dura mais do que dura; a imagem desvendada embacia de novo, torna-se necessário um outro desvendar. A reaparição do monstro é descrita em termos auditivos: «o som na treva de ele rodar», mas é um som que se refere à visualidade do círculo, do rodar. O visual escurece, esfuma-se, mas não se anula totalmente, o gesto anterior de desvendar (O Mostrengo) não se apagou de todo, pois exige a sua repetição. O monstro já não é inocente, ele sabe que pode ser vencido, por isso é que vem verificar tal possibilidade, chamar (ouvido) àquele que o pode dominar, porque o tinha já uma vez. Chamar àquele que por enquanto está a dormir, quer dizer que está submergido na oralidade, na pré-história: «Que veio aqui meu Senhor chamar / Chamar Aquele que está dormindo, / E foi outrora Senhor do Mar».

Uma discussão sobre oralidade e visualidade não se pode esquivar ao olhar pelo prisma mcluhaniano. Marshall McLuhan diz muitas coisas interessantes sobre a visualidade e a oralidade, nos seus dois livros que conhecemos3. A Mensagem poderia ser discutida em relação a cada passagem destes livros e estamos convencidos que não se trataria duma empresa inútil. Por motivos óbvios, vamos deter-nos unicamente em algumas frases, ou fases de reflexão com o risco de - por isolá-las do contexto - as deturpar, eventualidade pela qual pedimos desculpas, risco que assumimos plenamente.

Parece-nos menos importante o facto de McLuhan afirmar a superioridade da oralidade: consideramos a opção necessária para todo o acto de conhecimento, que não se pode produzir fora do compromisso. A tese principal dos dois trabalhos é a de nos encontrarmos hoje numa época de intersecção, de interacção das modalidades, de passagem da visualidade - sob a forma do modo alfabético - caracterizada pela uniformidade, pela linearidade e pela sucessão, a uma modalidade oral, sob a forma do modo electrónico, descontínuo e simultâneo. Afirma ainda que esta intersecção de modalidades, o híbrido formado pela oralidade e visualidade, o encontro dos dois media, é um momento de verdade e de iluminação que engendra formas novas capazes de nos arrancar «à narcose narcisística».

Se, na realidade, a intersecção das modalidades é o lugar privilegiado das artes, então Pessoa situa-se, pelo menos enquanto teórico, neste lugar. Entre as muitas correntes literárias que ele iniciou, o sensacionismo era uma arte poética baseada nos sentidos, sem que algum dominasse, sem que todos fossem necessariamente reunidos. Mas ele é também o criador do interseccionismo, que coloca no centro da concepção artística a ideia da intercecção de territórios opostos e contraditórios. Os termos da intersecção não são relacionados pelo princípio causa-efeito, nem estão em sucessão espacio-temporal, não são imagem no espelho, mas simultaneidade, independência e não-simetria, quer dizer identidade e ubiquidade.

Por um lado o sensacionismo e o interceccionismo, por outro a própria invenção dos heterónimos como luta com o tempo pela diversificação em tempos paralelos, toda a concepção pessoana do mundo como universo descontínuo, simultâneo, paradoxal, situam-no - pelo menos enquanto aspiração - na coordenada da oralidade, o modo moderno por excelência.

Por outro lado ainda, o interseccionismo e a modalidade dialéctica de conceber a relação ver/ouvir na Mensagem (e não só), à intersecção dos dois eixos instituindo-se a escrita, o livro, designam-no como um adepto, consciente ou inconsciente, do hibridismo, tornando-o terrivelmente nosso e do nosso tempo.

Na poesia, porém, a predominância das sensações visuais é flagrante. Na sua teoria literária, Pessoa exige da poesia a clareza e o sentido único, o que corresponde à linearidade, à sucessão e à homogeneidade do modo alfabético. Mas assim como «numa sociedade totalmente alfabetizada» o conformismo visual e de comportamento liberta o indivíduo da obrigação ao conformismo do pensamento, podemos perguntar-nos se, para Pessoa, o extremo esquizóide, a total abdicação perante a vista, o abandono nos «braços» do olhar, não seria causa ou/e efeito e tributo pago à sua passagem para o mundo da abstracção, do pensar em si e por si.

Há poemas inteiros em que não aparecem «objectos», poemas nos quais os objectos são apenas processos de abstractização da consciência. Há poemas em que a imagem não tem correspondência mínima na realidade, é puramente cerebral e a tensão, a emoção, nasce como prazer intelectual de brincar com a abstracção. O poema Ulisses, por exemplo, é um poema de que nenhuma imagem visual se poderia formar na retina, a sua visualidade é do domínio do pensamento abstracto. Como podia ser visualizada a imagem da lenda que, fecundando a realidade (o verbo fecundar é aqui o único vocábulo com uma forte significação concreta, isenta de ambiguidade por falta dum contrário que o anule) mata a vida, que não é senão metade de nada? A lenda fecundando a realidade transfere-a para outro sítio, do limitado e do contingente para o ilimitado e o transcendente. O sentido do poema é, realmente, um e um só, assim como o exigia Pessoa. A ambiguidade não é do poema, é do se referente.

 NOTAS:

1 - Gilbert Durand, Les structures anthropologiques de l' imaginaire, Paris, Bordas, 1969, considera o gládio (e o ceptro, que também aparece na mitologia pessoana, mas numa valorização negativa, a da abdicação) como principal simbolização da verticalidade, sugerindo uma interpretação do motivo como fuga perante o tempo, vitória sobre o destino.

2 - Jacques Derrida, L' écriture et la différence, Paris, Seuil, 1967.

3 - Pour comprendre les médias, Seuil, Paris, 1968; e The Gutemberg galaxy, Toronto, Toronto University Press, 1962.

Eminescu, Roxana, in ACTAS DO 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1985

topo


A Mensagem Filosófica da MENSAGEM

Afirmar-se que Fernando Pessoa é um grande poeta ou uma estrela de primeira grandeza, no firmamento da poesia portuguesa, não é novidade para ninguém.

Rigorosamente, a frase anterior é discutível, porque se apresenta vagamente definida quanto à primeira parte e voluntariamente indefinida quanto à segunda. Mas isto é Fernando Pessoa que, ao definir e caracterizar o poeta, se define e caracteriza a si próprio, escrevendo:

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

Por outro lado, sabe-se que a estrela é um presente aparente, expresso por um ponto luminoso e cintilante. A realidade, porém, é outra. O que vemos, de facto, é um passado-presente, no reflexo efémero dessa luz que nos transporta para um presente-futuro, buscando aí a fonte dessa mesma luz que, talvez!, já pertença ao passado. Quem sabe se, ao chegarmos lá, a estrela já não está, porque seguiu o seu destino?!

É assim que entendo Fernando Pessoa.

E a Mensagem?

Entendo que este seu livro, tal como qualquer outro do mesmo autor, deve ser analisado através de Fernando Pessoa e não independentemente dele. tal postura me coloca em face duma polémica tradicional, expressa pelo binómio autor-obra. Daí o uso de certos dados biográficos e psicológicos, capazes de mostrar quem é Fernando Pessoa e qual a sua mensagem filosófica.

As páginas subsequentes justificarão a escolha do método adoptado.

 

O PÓRTICO DA MENSAGEM

A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando. 

O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em angulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto. 

Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.

O rosto que fita é Portugal.

Assim abre a Mensagem e assim abre, também, a comunicação que tenho a honra de apresentar neste Congresso Internacional de estudos Pessoanos.

A poesia transcrita é uma esfinge colossal, magistralmente construída por Fernando Pessoa e por ele colocada majestosamente na portada desta sua obra. Tal como a esfinge de Gizé, também esta foi esculpida com todo o esmero e cuidado, não esquecendo os mínimos detalhes e como a sua homónima, também esta «fita, com olhar esfíngico e fatal, o futuro do passado».

Ambas guardam o seu próprio segredo e os segredos doutras eras. Construídas no tempo, ambas têm uma imanência extra-temporal e o seu espaço. Isso fica por conta do enigmático que ambas ostentam e do incógnito que as duas ciosamente conservam.

Querendo ou não, qualquer das esfinges permanecerá, lançando à inteligência e raciocínio dos homens o eterno desafio da sua compreensão. Querendo ou não, ninguém penetrará na Mensagem sem passar pela entrada. Tal como no Génesis, onde um anjo, com espada de fogo, guarda a porta do Paraíso, também aqui a esfinge de Fernando Pessoa guarda o seu poema.

Terminam aqui as analogias entre as duas esfinges e começam as diferenças.

Detendo-nos apenas, na diferença maior, verifica-se que a esfinge de Gizé no vale dos Reis, é simplesmente a esfinge de Gizé, muda, estática, impessoal. Guarda o que guarda, por acaso, e guarda-se a si própria por uma rotina de guardar. No fundo, ela nada mais é do que uma incógnita, não só para a posteridade, mas também para si mesma. Por isso, ela não é ninguém.

Em contrapartida, a esfinge construída por Fernando Pessoa retrata duas personagens: a da esfinge (personagem mítica) e a sua própria (personagem não mítica).

Qualquer desenho, caricatura ou retrato de Fernando Pessoa o identifica com a esfinge da Mensagem. Uma espécie de metempsicose muito sui generis o transmuda e, por metástase, a esfinge canta pelo poeta o que o poeta não pode deixar de cantar.

Isto faz da personalidade de Fernando Pessoa que, quanto mais se dobra sobre si mesmo, mais se desdobra, na busca de novas existências de si, sem nunca se encontrar. de facto, a definição do poeta não está no desdobramento, mas sim no encontro de si próprio consigo mesmo. Isso jamais ocorrerá em Fernando Pessoa, porque ele, como tantos outros desenraizados, é um desenraizado.

Considerava-se um estranho em Portugal e um estrangeiro, como de facto era, na África do Sul. Não tinha lugar, segundo ele, em parte alguma. O mundo real que supunha ver, não era a realidade do mundo, nem o real do mundo. Era uma visão fantasmagórica. Isso fez com que Fernando Pessoa se refugiasse nos mitos do mundo ou nos mitos de outros mundos e, de desdobramento em desdobramento, conseguiu distanciar-se de tudo, de todos e até de si próprio. Por isso, seja qual for a época em que se analise, Fernando Pessoa aparecerá sempre como um desajustado e um deslocado.

A MENSAGEM FILOSÓFICA

Fernando Pessoa não tem o estofo de um verdadeiro filósofo. Neste particular, a sua mensagem é constituída por fragmentos, que não passam de erupções violentas e contraditórias. esses lampejos, são relâmpagos de um espírito inquieto e atormentado, à busca não se sabe de quem ou de quê, existente não se sabe onde. Aquilo que ele, na realidade, busca, não quer encontrar, embora esteja bem perto dele. É ele próprio. Por isso, o prof. Prado Coelho escreve: «...os estados poéticos de consciência são autocontraditórios e instáveis, implicando por isso a consciência de não ser absolutamente consciente: a consciência de se ser sempre, de algum modo, inconsciente. A dialéctica da consciência-inconsciência percorre toda a poesia de Pessoa».

O Dr. A. José Saraiva fala-nos com muita objectividade sobre o desnorteamento dos escritores do início deste século ao se defrontarem com variantes «do neo-romantismo historicista, etnografista, sentimental e oratório à mistura com afluências de naturalismo de esteticismo». Como se isto não bastasse, surgem, como ingredientes, o positivismo e o amoralismo nietzscheano.

Daí resulta uma desacomodação característica dos escritores desta época, um desajustamento mais ou menos acentuado conforme as singularidades de cada um e uma natural dificuldade em definir atitudes e posições entre as correntes mencionadas.

No aspecto filosófico, o Dr. A. José Saraiva refere-se a «...duas e opostas inspirações filosóficas: o positivismo, e um certo transcendentalismo (ou panteísmo?) ostensivamente heterodoxo, cuja principal cristalização se encontra em Sampaio Bruno e que, aparentemente, se estende a Junqueiro, Pascoais, Raul Brandão, Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa».

No meu entender, o positivismo está fora do esquema da mensagem filosófica de Fernando Pessoa. Apesar da instrução recebida na High School de Durban e na Universidade do Cabo, onde, segundo ele, «recebeu uma cultura que o libertou para dentro», o poeta sabe e nós também sabemos que ele não conseguiu a liberdade interior e muito menos a liberdade exterior. Introvertido, pouco expansivo, esfíngico, enigmático, tal como a esfinge que abre o poema e que é, de certa forma, o seu auto-retrato, a sua vocação é para viver segregado, lendo e meditando. Fernando Pessoa é uma insatisfação, uma dúvida e uma inquietação permanentes. A sua passagem pela realidade nada tem a ver com o real.

Em contrapartida, o panteísmo é um dos condimentos de que se serve qualquer epopeia e de que se serve também Fernando Pessoa, para escrever a sua. Afinal, a Mensagem - único livro de versos portugueses que publicou em vida - constitui, segundo David Mourão-Ferreira, «uma das raras possibilidades de sobrevivência da epopeia em verso».

Em Fernando Pessoa, o panteísmo é transcendentalista. Isto significa que o poeta caminha através do panteísmo como um peregrino pelo vale das sombras. Não se detém. Segue em frente, para além, na busca de algo que ele não sabe ou «finge» não saber concretamente o que é, nem sabe ou «finge» não saber concretamente onde está.

Essa transcendentalidade, panteísta por acidente, por circunstância ou por exigência estilística, é a grande base da mensagem filosófica.

Essa base é subtilmente construída, usando um recurso bem simples. Nas 44 poesias de que se compõe a Mensagem, a palavra «Deus» aparece vinte e oito vezes, sempre com maiúscula e apenas duas vezes no plural. Por todo o poema encontram-se ainda certas palavras como Natureza, Mar, Universo, Além, Mistério, Sonho, Acaso, Sorte, Destino, Vontade e outras, sempre com maiúscula, também, como se pretendesse transformá-las em personagens míticas.

Reordenando todos esses elementos dentro do relacionamento existente entre eles, verifica-se que a transcendentalidade panteísta da mensagem de Fernando Pessoa é a base dessa mesma mensagem, conforme se demonstra no esquema apresentado.

Eis a sua leitura:

Por um lado, a Natureza é a imagem visível do Universo invisível, esse Longe que a Ciência, apenas, vislumbra.

Pelo outro lado, o Mar, que é a Distância visível de um Além invisível, gera o Sonho do Infante e o Sonho é o primeiro passo da Ciência.

Essas duas linhas, divergentes na origem, embora correspondentes, encontram-se no invisível de uma Aurora que não amanhece, porque esconde algo. O quê?

De Assombro em Assombro chega-se ao Mistério e aí explode toda a potencialidade desse panteísmo transcendentalista e qualquer que seja a sua expressão - Acaso, Sorte, Destino ou Vontade - o resultado é sempre o mesmo: a Hora que, ao chegar, revelará a Verdade. Daí ao Fim é um passo que Fernando Pessoa nunca dará. Por isso, o seu misticismo idealista perde-se em nuvens, onde a dúvida em face da presença gera a Dúvida da Presença. Essa é a angústia da Mensagem e é, também, a angústia do poeta.

Como se vê, qualquer que seja a linha percorrida, cai-se necessariamente no misticismo idealista. É aqui que se inicia o conteúdo da mensagem filosófica da Mensagem e á aqui, também, que se inicia o reprocessamento de todo esse conteúdo. De facto, o idealismo de Fernando Pessoa é mais cartesiano do que berkeliano e radicalmente diferente do idealismo de Hegel. Identifica-se com o super-sebastianismo e com o super-saudosismo, o que lhe dá um tom bem lusíada. As referências surgem de uma forma indirecta e habilmente disfarçada, como neste versos:

...a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.

(Ulisses)

Ou ainda:

...esta febre de Além, que me consome

E este querer grandeza são seu nome

Dentro de mim a vibrar.

(D. Fernando)

E num crescendo de fúria poética, fascinado pelo encanto de pensamentos tão belos e sublimes, Fernando Pessoa exclama:

Cheio de Deus, não temo o que virá,

Pois, venha o que vier, nunca será

Maior do que a minha alma.

(Idem)

Ou ainda:

...o mar com fim será grego ou romano:

O mar sem fim é português.

(Padrão)

Mas não é tudo, quando se lê:

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal.

(Mar Português)

sente-se a presença de Fernando Pessoa, chorando também, por essa «última nau» que leva «a bordo El-Rei D. Sebastião». E da mesma forma que os portugueses de antanho perscrutavam os nevoeiros cerrados do Tejo na esperança de ver surgir o Desejado, também o poeta assume igual postura esfíngica, ao escrever:

Vejo entre a cerração teu vulto baço

Que torna.

Não sei a hora, mas sei que há a hora.

(A Última Nau)

Ou ainda:

Que voz vem no som das ondas

Que não é a voz do mar?

(As Ilhas Afortunadas)

Se, até aqui, o super-saudosismo tinha o seu próprio caminho e o super-sebastianismo o seu, agora os dois se fundem e confundem, adquirindo um tom e forma que vai do dramático ao patético. Tudo começa com:

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

......

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

(Prece)

Continua:

Sperai! Caí no areal e na hora adversa.

(D. Sebastião)

Prossegue:

Quem vem vivera verdade

Que morreu D. Sebastião?

(O Quinto Império)

E o poeta, como um alucinado da saudade e da esperança, derrama os últimos versos dessa ilusão:

Ergue-te do fundo de não-seres

Para teu novo fado!

Vem, Galaaz com pátria.

(O Desejado)

E já no desespero, exclama:

Quando virás, ó Encoberto,

Sonho das eras português,

Tomar-me mais que o sopro incerto

De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás, voltando,

Fazer minha esperança amor?

Da névoa e da saudade quando?

Quando, meu Sonho e meu Senhor?

(Screvo meu livro à beira-mágoa)

E agora o que resta de tudo isto?

Não resistindo às contradições e conflitos que se lhe apresentam, o idealismo de Fernando Pessoa vai-se desgastando cada vez mais, numa dúvida cada vez maior. O misticismo esmorece, definha, morre. E quando ele escreve:

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,

Define com perfil e ser

Este fulgor baço da terra

Que é Portugal a entristecer -

Brilho sem luz e sem arder,

Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,

Ninguém conhece que alma tem,

Nem o que é mal nem o que é bem.

(Que ânsia distante perto chorará?)

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

(Nevoeiro)

não há dúvida de que «a hora» significa o fim do misticismo idealista que o arrastou por todas as páginas do poema. Mas não é o fim da mensagem filosófica, pois essa mal começou.

Da exaltação do sonho, Fernando Pessoa cai na realidade desse mesmo sonho e descobre aí o impossível de sonhar. O resultado é inevitável: o pessimismo.

Nota-se aqui a influência depressiva de Baudelaire e não custa descobrir o sulco de Schopenhauer e de Nietzsche. As alusões são frequentes e duras. Eis algumas:

Compra-se a glória com desgraça.

(O das Quinas)

O mais é carne, cujo pó

a terra espreita.

(D. João o Primeiro)

Não me podia a Sorte dar guarida

Por não ser eu dos seus.

(D. Pedro)

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza.

(D. Sebastião)

Outros haverão de ter

O que houvermos de perder.

(Os Colombos)

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar.

(O Quinto Império)

Que jaz no abismo sob o mar que se ergue?

Nós, Portugal, o poder ser.

(Tormenta)

E o Dr. A. José Saraiva comenta:

«Pessoa surge-nos desiludido, derrotado, sem ânimo para perseguir uma Verdade que lhe parece inacessível. No âmago da sua atitude há um pirronismo que não atribui maior certeza a uma doutrina que à doutrina oposta».

Não me parece que o pessimismo, que a sua mensagem filosófica nos transmite, se oriente na direcção do pirronismo. Na Mensagem não há lugar para o cepticismo radical. É preciso não esquecer que a personalidade de Fernando Pessoa não é estável, desdobra-se indefinidamente e é preciso não esquecer, também, que nós, apenas, conhecemos alguns desses desdobramentos. Por outro lado, a projecção com base nesses antecedentes jamais nos levará a qualquer tipo de radicalismo, que é, por natureza, estável. O poeta não permanece no pessimismo. Cai nele por questão de lógica das consequências, mas não se detém. O seu «Eu» não aguentaria. A própria mensagem filosófica nos prova isto. Quem escreve:

Tudo é incerto e derradeiro.

Tudo é disperso, nada é inteiro.

(Nevoeiro)

é o mesmo poeta que escreve, também:

É a busca de quem somos, na distância

De nós; e, em febre de ânsia,

A Deus as mãos alçamos.

(Noite)

Esta postura leva-nos numa direcção oposta a qualquer radicalismo. O que a mensagem filosófica de Fernando Pessoa nos transmite, é um cepticismo que se identifica, em parte, com o fideísmo e, em parte, com o relativismo. No fundo, isto não passa de um processo inverso à concepção idealista hegeliana, em que a realização da ideia se inicia pela antítese e chega à tese através da antonímia. O resultado é surpreendente: a síntese explode com toda a beleza, grandeza e majestade. Observem-se os exemplos seguintes:

Os Deuses vendem quando dão,

Compra-se a glória com desgraça.

Ai dos felizes, porque são

Só o que passa!

Baste a quem baste o que lhe basta

O bastante de lhe bastar!

A vida é breve, a alma é vasta.

Ter é tardar.

(O das Quinas)

Aqui, é o relativismo que está em evidência. Nestoutra é o fideísmo:

Todo o começo é involuntário.

Deus é o agente,

O herói a si assiste, vário

E inconsciente.

(O Conde D. Henrique)

O FIM

Chegou-se ao fim, não ao fim do FIM. Uma epopeia jamais perece. Do mesmo modo que Os Lusíadas são a épica da Épica histórica portuguesa, a Mensagem é a épica da Mística histórica de Portugal e a sua mensagem viverá para sempre. É imortal.

Agora, só resta a síntese de tudo o que se escreveu e a síntese é, nada mais nada menos, do que a própria alma dessa mensagem filosófica.

E qual é ela?

Responde Fernando Pessoa:

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal

A mão que ergueu o facho que luziu,

Foi Deus a alma e o corpo de Portugal

Da mão que o conduziu.

(Ocidente)

«O facho que luziu» é a mensagem e essa alma que se manifesta em luz e pela luz é a alma de Portugal, alma mística, alma idealista, alma cheia de nobreza, coragem, tenacidade e fé.

Essa é, também, a alma da mensagem filosófica de Fernando Pessoa.

BIBLIOGRAFIA

1 Pessoa, Fernando, Mensagem. Lisboa, Ática, 1967.

2 Coelho, Jacinto do Prado. Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa. Lisboa, Verbo, 1963.

3 Saraiva, António José. História da Literatura Portuguesa. Porto, Porto Editora, 1967.

Monteiro, Luís Filipe Barata, in ACTAS DO 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DE ESTUDOS PESSOANOS, Centro de Estudos Pessoanos, Porto, 1985

topo