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Oposição
de Telmo ao segundo casamento de D. Madalena
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Telmo
(deitando-lhe os
olhos) - Oh! oh!
livro para damas - e para cavaleiros... e para todos: um livro que serve
para todos; como não há outro, tirante o respeito devido ao da palavra
de Deus! Mas esse não tenho eu a consolação de ler, que não sei latim
como o meu senhor... quero dizer, como o Sr Manuel de Sousa Coutinho - que
lá isso!... [...]
Madalena
- Olhai, Telmo; eu não vos quero dar conselhos: bem sabeis que desde o
tempo que... que...
Telmo
- Que já lá vai, que era outro tempo.
[...]
Madalena
- [...] Conheci-te de tão criança, de quando casei a... a... a...
primeira vez - costumei-me a olhar para ti com tal respeito: já então
eras o que és, o escudeiro valido, o familiar quase parente, o amigo
velho e provado de teus amos...
Telmo
(enternecido)
- Não digais mais, senhora, não me lembreis de tudo o que eu era.
Madalena
(quase ofendida)
- Porquê? Não és hoje o mesmo, ou mais ainda, se é possível?
Quitaram-te alguma coisa da confiança, do respeito, do amor e carinho a
que estava costumado o aio fiel de meu senhor D. João de Portugal, que
Deus tenha em glória?
Telmo
(aparte)
- Terá...
[...]
Madalena
- [...] Depois que fiquei só, depois daquela funesta jornada de
África que me deixou viúva, órfã e sem ninguém... sem ninguém, e
numa idade... com dezassete anos! - em vós, Telmo, em vós só, achei o
carinho e protecção, o amparo que eu precisava. Ficastes-me em lugar de
pai: e eu... salvo numa coisa! - tenho sido para vós, tenho-vos obedecido
como filha.
Telmo
- Oh, minha senhora, minha senhora! mas essa coisa em que vos
apartastes dos meus conselhos...
Madalena
- Para essa houve poder maior que as minhas forças... D. João ficou
naquela batalha com seu pai, com a flor da nossa gente. (sinal
de impaciência em Telmo)
Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória, como
durante sete anos, incrédula a tantas provas e testemunhos de sua morte,
o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as sejanas de Fez e
Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves aí houve... Cabedais e
valimentos, tudo se empregou; gastaram-se grossas quantias; os
embaixadores de Portugal e Castela tiveram ordens apertadas de o buscar
por toda a parte; aos padres da Redenção, a quanto religioso ou mercador
podia penetrar naquelas terras, a todos se encomendava o seguir a pista do
mais leve indício que pudesse desmentir, pôr em dúvida ao menos, aquela
notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha de Alcácer.
Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida...
Telmo
- senão a mim.
Madalena
- Dúvida de fiel servidor, esperança de leal amigo, meu bom Telmo,
que diz com vosso coração, mas que tem atormentado o meu... E então sem
nenhum fundamento, sem o mais leve indício... Pois dizei-me em
consciência, dizei-mo de uma vez, claro e desenganado: a que se apega
esta vossa credulidade de sete... e hoje mais catorze... vinte e um anos?
Telmo
(gravemente)
- Às palavras, às formais palavras daquela carta escrita na própria
madrugada do dia da batalha, e entregue a Frei Jorge que vo-la trouxe. -
«Vivo ou morto» - rezava ela - «vivo ou morto...» Não me esqueceu uma
letra daquelas palavras: e eu sei que homem era meu amo para as escrever
em vão: - «vivo ou morto, Madalena, hei-de ver-vos pelo menos ainda uma
vez neste mundo.» - Não era assim que dizia?
Madalena
(aterrada)
- Era.
Telmo
- Vivo não veio... inda mal! E morto... a sua alma, a sua figura...
Madalena
(possuída de grande
terror) - Jesus,
homem!
Telmo
- Não vos apareceu decerto.
Madalena
- Não, credo!
Telmo
(misterioso)
- Bem sei que não. Queria-vos muito; e a sua primeira visita, como de
razão, seria para minha senhora. Mas não sei se ia sem aparecer também
ao seu aio velho.
Madalena
- Valha-me Deus, Telmo! Conheço que desarrazoais; e contudo as vossas
palavras metem-me um medo... Não me faças mais desgraçada.
Telmo
- Desgraçada! Porquê? Não sois feliz na companhia do homem que
amais, nos braços do homem a quem sempre quisestes mais sobre todos? -
Que o pobre do meu amo... respeito, devoção, lealdade, tudo lhe
tivestes, como tão nobre e honrada senhora que sois... mas amor!
Madalena
- Não está em nós dá-lo, nem quitá-lo, amigo.
Telmo
- Assim é. Mas os ciúmes que meu amo não teve nunca - bem sabeis que
têmpera de alma era aquela - tenho-os eu... aqui está a verdade nua e
crua... tenho-os eu por ele. Não posso, não posso ver... e desejo,
quero, forcejo por me acostumar... mas não posso. Manuel de Sousa... o
senhor Manuel de Sousa Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom
português... mas - mas não é, nunca há-de ser, aquele espelho de
cavalaria e gentileza, aquela flor dos bons... Ah meu nobre amo, meu santo
amo!
(acto
I, cena II)

Madalena
- Filha do meu coração!
Telmo
- E do meu. Pois não se lembra, minha senhora, que ao princípio era
uma criança que eu não podia... - é a verdade, não a podia ver: já
sabereis porquê; mas vê-la, era ver... Deus me perdoe!... nem eu sei...
E daí começou-me a crescer, a olhar para mim com aqueles olhos a
fazer-me tais meiguices, e a fazer-se-me um anjo tal de formosura e de
bondade, que - vedes-me aqui agora, que lhe quero mais do que seu pai.
Madalena
(sorrindo) -
Isso agora...
Telmo
- Do que vós.
Madalena
(rindo) -
Ora, meu Telmo!
Telmo
- Mais, muito mais. E veremos: tenho cá uma coisa que me diz que,
antes de muito, se há-de ver quem é que quer mais à nossa menina nesta
casa.
[...]
Telmo
- Assim é. Mas os ciúmes que meu amo não teve nunca - bem sabeis que
têmpera de alma era aquela - tenho-os eu... aqui está a verdade nua e
crua... tenho-os eu por ele. Não posso, não posso ver... e desejo,
quero, forcejo por me acostumar... mas não posso. Manuel de Sousa... o
senhor Manuel de Sousa Coutinho é guapo cavalheiro, honrado fidalgo, bom
português... mas - mas não é, nunca há-de ser, aquele espelho de
cavalaria e gentileza, aquela flor dos bons... Ah meu nobre amo, meu santo
amo!
Madalena
- Pois sim, tereis razão... tendes razão, será tudo como dizeis. Mas
reflecti, que haveis cabedal de inteligência para muito; eu resolvi-me
por fim a casar com Manuel de Sousa; foi do aprazimento geral de nossas
famílias, da própria família de meu primeiro marido, que bem sabeis
quanto me estima; vivemos (com
afectação) seguros,
em paz e felizes... há catorze anos. Temos esta filha, esta querida Maria
que é todo o gosto e ânsia da nossa vida. Abençoou-nos Deus na
formosura, no ingenho, nos dotes admiráveis daquele anjo... E tu, meu
Telmo, que és tão seu, que chegas a pretender ter-lhe mais amor que nós
mesmos...
Telmo
- Não, não tenho!
Madalena
- Pois tens: melhor! E és tu o que andas, continuamente e quase por
acinte, a sustentar essa quimera, a levantar esse fantasma, cuja sombra, a
mais remota, bastaria para inodoar a pureza daquela inocente, para
condenar a eterna desonra a mãe e a filha!... (Telmo
dá sinais de grande agitação)
Ora dize: já pensaste bem no mal que estás fazendo? Eu bem sei que a
ninguém neste mundo, senão a mim, falas em tais coisas... falas assim
como hoje temos falado... mas as tuas palavras misteriosas, as tuas
alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais
desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, por quem ainda
espera em sua leal incredulidade, - esses contínuos agouros, em que andas
sempre, de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família... não
vês que estás excitando com tudo isso a curiosidade daquela criança,
aguçando-lhe o espírito - já tão perspicaz! - a imaginar, a
descobrir... quem sabe se a acreditar nessa prodigiosa desgraça, em que
tu mesmo... tu mesmo... sim, não crês deveras? Não crês, mas achas
não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida
fatal. E então considera, vê: se um terror semelhante chega a entrar
naquela alma, quem lho há-de tirar nunca mais?... O que há-de ser dela e
de nós? - Não a perdes, não a matas... não me matas a minha filha?
Telmo
(em grande agitação
durante a fala precedente, fica pensativo e aterrado; fala depois como
para si) - É
verdade que sim! A morte era certa. E não há-de morrer: não, não,
não, três vezes não. (para
Madalena) À fé
de escudeiro honrado, senhora D. Madalena, a minha boca não se abre mais;
e o meu espírito há-de... há-de fechar-se também... (aparte)
Não é possível, mas eu hei-de salvar o meu anjo do Céu! (alto
para Madalena) Está
dito, minha senhora.
(acto
I, cena II)
Telmo
(só) -
Virou-se-me a alma toda com isto: já não sou o mesmo homem. Tinha um
pressentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia
deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e
fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho
do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei nestes braços...
vou saber novas certas dele, no fim de vinte anos de o julgarem todos
perdido; e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua
vinda... - era um milagre que eu esperava sem o crer! - Eu agora tremo...
É que o amor desta outra filha, desta última filha, é maior, e
venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é pecado. Mas que
pecado há-de haver com aquele anjo? Se ela me viverá, se escapará desta
crise terrível? Meu Deus! (ajoelha)
Levai o velho que já não presta para nada, levai-o por quem sois! (aparece
o romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo
que não dá por ele)
Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não
me tomeis dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para
vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já
traspassaram bastantes dores aquela alma; esperai com a da morte algum
tempo!...
(acto
III, cena IV)

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Telmo
deseja a morte de D. João de Portugal
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Telmo
(só) -
Virou-se-me a alma toda com isto: já não sou o mesmo homem. Tinha um
pressentimento do que havia de acontecer... parecia-me que não podia
deixar de suceder... e cuidei que o desejava enquanto não veio. Veio, e
fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguém! Meu honrado amo, o filho
do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu criei nestes braços...
vou saber novas certas dele, no fim de vinte anos de o julgarem todos
perdido; e eu, eu que sempre esperei, que sempre suspirei pela sua
vinda... - era um milagre que eu esperava sem o crer! - Eu agora tremo...
É que o amor desta outra filha, desta última filha, é maior, e
venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é pecado. Mas que
pecado há-de haver com aquele anjo? Se ela me viverá, se escapará desta
crise terrível? Meu Deus! (ajoelha)
Levai o velho que já não presta para nada, levai-o por quem sois! (aparece
o romeiro à porta da esquerda, e vem lentamente aproximando-se de Telmo
que não dá por ele)
Contentai-vos com este pobre sacrifício da minha vida, Senhor, e não
me tomeis dos braços o inocentinho que eu criei para vós, Senhor, para
vós... mas ainda não, não mo leveis ainda. Já padeceu muito, já
traspassaram bastantes dores aquela alma; esperai com a da morte algum
tempo!...
(acto
III, cena IV)
Telmo
- Esta voz... esta voz! Romeiro, quem és tu?
Romeiro
(tirando o chapéu e
alevantando o cabelo dos olhos) -
Ninguém, Telmo, ninguém, se nem já tu me conheces.
Telmo
(deitando-se-lhe às
mãos para lhas beijar) -
Meu amo, meu senhor... sois vós? Sois, sois. D. João de Portugal, oh,
sois vós, senhor?
Romeiro
- Teu filho já não?
[...]
Telmo
- Por tão longe andastes?
Romeiro
- E por tão longe eu morrera! - Mas não quis Deus assim.
Telmo
- Seja feita a Sua vontade.
Romeiro
- Pesa-te?
Telmo
- Oh, senhor!
Romeiro
- Pesa-te.
Telmo
- Há-de-me pesar da vossa vida? (aparte) Meu Deus,
parece-me que menti...
(acto
III, cena V)

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Telmo
"mata" D. João de Portugal
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Romeiro
- Basta: vai
dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém
mais houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos
inimigos de... dos inimigos desse homem que ela ama... E que sossegue, que
seja feliz. Telmo, adeus!
Telmo
- E eu hei-de
mentir, senhor, eu hei-de renegar de vós, como um ruim vilão que não
sou?
Romeiro
- Hás-de, porque eu te mando.
Telmo
- Por tão longe andastes?
Romeiro
- E por tão longe eu morrera! - Mas não quis Deus assim.
Telmo
(em grande ansiedade) - Senhor,
senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não
sabeis... D. João, meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...
Romeiro
- O quê?
Telmo
- Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também
criei...
Romeiro
- E a quem já queres mais que a mim, dize a verdade.
Telmo
- Não mo
pergunteis.
Romeiro
- Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! Tiraram-me tudo.
[...]
Telmo
- Meu Deus, meu Deus! que hei-de eu fazer?
Romeiro
- O que te ordena teu amo. Telmo, dá-me um abraço. (abraçam-se) Adeus, adeus,
até...
Telmo
(com ansiedade
crescente) - Até
quando, senhor?
Romeiro
- Até ao dia do juízo.
Telmo
- Pois vós?...
Romeiro
- Eu... - Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso
remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E
para quê? D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que
ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele amava... oh,
Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! - sua mulher que ele já não pode
amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha
morte, nessa hora morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do mundo dos
vivos. D. João de Portugal não há-de desonrar a sua viúva. Não, vai;
dito por ti terá dobrada força: dize-lhe que falaste com o romeiro, que
o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que
quiseres, mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. de mim
já não há senão esse nome, ainda honrado; a memória dele que fique
sem mancha. está em tuas mãos, Telmo, entrego-te mais do que a minha
vida. Queres faltar-me agora?
Telmo
- Não, meu senhor; a resolução é nobre e digna de vós. Mas pode
ela aproveitar ainda?
Romeiro
- Porque não?
Telmo
- Eu
sei! - Talvez...
(acto
III, cena V)
Telmo
(à parte, a Jorge) -
Tenho que vos dizer, ouvi. (conversam
ambos à parte)
[...]
Jorge
(continuando a
conversação com Telmo, e levantando a voz com aspereza) -
É impossível já agora... e sempre o devia ser.
(acto
III, cena VII)
Romeiro
(para Telmo)
- Vai, vai; vê se ainda é tempo; salva-os, salva-os, que ainda
podes.... (Telmo
dá alguns passos para diante)
(acto
III, cena XII)

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