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Folhas Caídas
de
[Advertência] * [Ignoto Deo] *[Adeus!] * [O Anjo Caído] * [Este Inferno de Amar] * [Gozo e Dor]
[Perfume da Rosa] * [Os Cinco Sentidos] * [Cascais] * [Estes Sítios!] * [Não te amo] * [Anjo És]
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Advertência a Folhas Caídas Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória. A outros versos chamei eu já as últimas recordações de minha vida poética. Enganei o público, mas de boa fé, porque me enganei primeiro a mim. Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa. Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia. Que juramentos! Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles. Poeta na primavera, no estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo. Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro. Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções. Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público. Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar. Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que nenhuns outros que fizesse. Porquê? É impossível dizê-lo, mas é verdade. E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor. Que importa? Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e o mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio. Eu sei que tenho o olhos abertos, ao menos agora. Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças. Enfim, eu não queimo estes. Consagrei-os Ignoto Deo. E o deus que os inspirou que os aniquile se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu. Ainda assim, no Ignoto Deo não imaginem alguma divindade meia velada com o cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara. O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta. Imaginação que porventura não se realiza nunca. E daí quem sabe? A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais. Saúde, riqueza, miséria, pobreza, e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos. Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele. Logo o poeta é louco porque aspira sempre ao impossível. Não sei. Essa é uma disputação mais longa. Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito , que, tendendo ao seu fim único, a posse do ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chagar a ele - ora ri amargamente porque reconhece o seu engano - ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã. Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória. Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele. Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis. Vai, porque é espírito, e vós sois matéria. E vós morrereis, ele não. Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco. E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte. Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta. Janeiro - 1853 |
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Ignoto Deo (D. D. D.) Creio em ti, Deus; a fé viva De minha alma a ti se eleva. És: - o que és não sei. Deriva Meu ser do teu: luz... e treva, 5 Em que - indistintas! - se envolve Este espírito agitado, De ti vêm, a ti devolve. O Nada, a que foi roubado Pelo sopro criador 10 Tudo o mais, o há-de tragar. Só vive do eterno ardor O que está sempre a aspirar Ao infinito donde veio. Beleza és tu, luz és tu, 15 Verdade és tu só. Não creio Senão em ti; o olho nu Do homem não vê na terra Mais que a dúvida, a incerteza, A forma que engana e erra. 20 Essência! a real beleza, O puro amor - o prazer Que não fatiga e não gasta... Só por ti os pode ver O que, inspirado, se afasta, 25 Ignoto Deo, das ronceiras, Vulgares turbas: despidos Das coisas vãs e grosseiras Sua alma, razão, sentidos, A ti se dão, em ti vida, 30 E por ti vida têm. Eu, consagrado A teu altar, me prostro e a combatida Existência aqui ponho, aqui votado Fica este livro - confissão sincera Da alma que a ti voou e em ti só spera.
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Adeus! para sempre adeus! Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora Sinto a justiça dos céus Esmagar-me a alma que chora. 5 Choro porque não te amei, Choro o amor que me tiveste; O que eu perco, bem no sei, Mas tu... tu nada perdeste; Que este mau coração meu 10 Nos secretos escaninhos Tem venenos tão daninhos Que o seu poder só sei eu. Oh! vai... para sempre adeus! Vai, que há justiça nos céus. 15 Sinto gerar na peçonha Do ulcerado coração Essa víbora medonha Que por seu fatal condão Há-de rasgá-lo ao nascer: 20 Há-de sim, serás vingada, E o meu castigo há-de ser Ciúme de ver-te amada, Remorso de te perder. Vai-te, oh! vai-te, longe, embora, 25 Que sou eu capaz agora De te amar - Ai! se eu te amasse! Vê se no árido pragal Deste peito se ateasse De amor o incêndio fatal! 30 Mais negro e feio no inferno Não chameia o fogo eterno. Que sim? Que antes isso? - Ai, triste! - Não sabes o que pediste. Não te bastou suportar 35 O cepo-rei; impaciente Tu ousas a deus tentar Pedindo-lhe o rei-serpente! E cuidas amar-me ainda? Enganas-te: é morta, é finda, 40 Dissipada é a ilusão. Do meigo azul de teus olhos Tanta lágrima verteste, Tanto esse orvalho celeste Derramado o viste em vão 45 Nesta seara de abrolhos, Que a fonte secou. Agora Amarás... sim, hás-de amar, Amar deves... Muito embora... Oh! mas noutro hás-de sonhar 50 Os sonhos de oiro encantados Que o mundo chamou amores. E eu réprobo... eu se o verei? Se em meus olhos encovados Der a luz de teus ardores... 55 Se com ela cegarei? Se o nada dessas mentiras Me entrar pelo vão da vida... Se, ao ver que feliz deliras, Também eu sonhar... Perdida, 60 Perdida serás - perdida. Oh! vai-te, vai, longe embora! Que te lembre sempre e agora Que não te amei nunca... ai! não; E que pude a sangue-frio, 65 Covarde, infame, vilão, Gozar-te - mentir sem brio, Sem alma, sem dó, sem pejo, Cometendo em cada beijo Um crime... Ai! triste, não chores, 70 Não chores, anjo do céu, Que o desonrado sou eu. Perdoar-me tu?... Não mereço. A imundo cerdo voraz Essas pérolas de preço 75 Não as deites: é capaz De as desprezar na torpeza De sua bruta natureza. Irada, te há-de admirar, Despeitosa, respeitar, 80 Mas indulgente... Oh! o perdão É perdido no vilão, Que de ti há-de zombar. Vai, vai... para sempre adeus! Para sempre aos olhos meus 85 Sumido seja o clarão De tua divina estrela. Faltam-me olhos e razão Para a ver, para entendê-la: Alta está no firmamento 90 Demais, e demais é bela Para o baixo pensamento Com que em má hora a fitei; Falso e vil o encantamento Com que a luz lhe fascinei. 95 Que volte a sua beleza Do azul do céu à pureza, E que a mim me deixe aqui Nas trevas em que nasci, Trevas negras, densas, feias, 100 Como é negro este aleijão Donde me vem sangrar às veias, Este que foi coração, Este que amar-te não sabe Porque é só terra - e não cabe 105 Nele uma ideia dos céus... Oh! vai, vai; deixa-me, adeus! |
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O Anjo Caído Era um anjo de Deus Que se perdera dos céus E terra a terra voava. A seta que lhe acertava 5 Partira de arco traidor, Porque as penas que levava Não eram penas de amor. O anjo caiu ferido, E se viu aos pés rendido 10 Do tirano caçador. De asa morta e sem splendor O triste, peregrinando Por estes vales de dor, Andou gemendo e chorando. 15 Vi-o eu, o anjo dos céus, O abandonado de Deus, Vi-o, nessa tropelia Que o mundo chama alegria, Vi-o a taça do prazer 20 Pôr ao lábio que tremia... E só lágrimas beber. Ninguém mais na terra o via, Era eu só que o conhecia... Eu que já não posso amar! 25 Quem no havia de salvar? Eu, que numa sepultura Me fora vivo enterrar? Loucura! ai, cega loucura! Mas entre os anjos dos céus 30 Faltava um anjo ao seu Deus; E remi-lo e resgatá-lo, Daquela infâmia salvá-lo Só força de amor podia. Quem desse amor há-de amá-lo, 35 Se ninguém o conhecia? Eu só, - e eu morto, eu descrido, Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. Cravei-a eu nessa cruz 40 Minha alma que renascia, Que toda em sua alma pus, E o meu ser se dividia, Porque ela outra alma não tinha, Outra alma senão a minha... 45 Tarde, ai! tarde o conheci, Porque eu o meu ser perdi, E ele à vida não volveu... Mas da morte que eu morri Também o infeliz morreu. |
Linhas de Leitura Em relação a este poema, queria, sobretudo, chamar a atenção para as suas características narrativas:
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MODELO POSSÍVEL
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Este Inferno de Amar Este inferno de amar - como eu amo! - Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi? Esta chama que alenta e consome, Que é a vida - e que a vida destrói - 5 Como é que se veio a atear, Quando - ai quando se há-de ela apagar? Eu não sei, não me lembra: o passado, A outra vida que dantes vivi Era um sonho talvez... - foi um sonho - 10 Em que paz tão serena a dormi! Oh! que doce era aquele sonhar... Quem me veio, ai de mim! despertar? Só me lembra que um dia formoso Eu passei... dava o sol tanta luz! 15 E os meus olhos, que vagos giravam, Em seus olhos ardentes os pus. Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei; Mas nessa hora a viver comecei... |
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Gozo e Dor Se estou contente, querida, Com esta imensa ternura De que me enche o teu amor? - Não. Ai não; falta-me a vida; 5 Sucumbe-me a alma à ventura: O excesso de gozo é dor. Dói-me a alma, sim; e a tristeza Vaga, inerte e sem motivo, No coração me poisou. 10 Absorto em tua beleza, Não sei se morro ou se vivo, Porque a vida me parou. É que não há ser bastante Para este gozar sem fim 15 Que me inunda o coração. Tremo dele, e delirante Sinto que se exaure em mim Ou a vida - ou a razão. |
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Perfume da Rosa Quem bebe, rosa, o perfume Que de teu seio respira? Um anjo, um silfo? ou que nume Com esse aroma delira? 5 Qual é o deus que, namorado, De seu trono te ajoelha, E esse néctar encantado Bebe oculto, humilde abelha? - Ninguém? - Mentiste: essa frente 10 Em languidez inclinada, Quem ta pôs assim pendente? Dize, rosa namorada. E a cor de púrpura viva Como assim te desmaiou? 15 e essa palidez lasciva Nas folhas quem ta pintou? Os espinhos que tão duros Tinhas na rama lustrosa, Com que magos esconjuros 20 Tos desarmam, ó rosa? E porquê, na hástea sentida Tremes tanto ao pôr do sol? Porque escutas tão rendida O canto do rouxinol? 25 Que eu não ouvi um suspiro Sussurrar-te na folhagem? Nas águas desse retiro Não espreitei a tua imagem? Não a vi aflita, ansiada... 30 - Era de prazer ou dor? - Mentiste, rosa, és amada, E também tu amas, flor. Mas ai! se não for um nume O que em teu seio delira, 35 Há-de matá-lo o perfume Que nesse aroma respira. |
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Os Cinco Sentidos São belas - bem o sei, essas estrelas, Mil cores - divinais têm essas flores; Mas eu não tenho, amor, olhos para elas: Em toda a natureza Não vejo outra beleza Senão a ti - a ti! Divina - ai! sim, será a voz que afina Saudosa - na ramagem densa, umbrosa. será; mas eu do rouxinol que trina Não oiço a melodia, Nem sinto outra harmonia Senão a ti - a ti! Respira - n'aura que entre as flores gira, Celeste - incenso de perfume agreste, Sei... não sinto: minha alma não aspira, Não percebe, não toma Senão o doce aroma Que vem de ti - de ti! Formosos - são os pomos saborosos, É um mimo - de néctar o racimo: E eu tenho fome e sede... sequiosos, Famintos meus desejos Estão... mas é de beijos, É só de ti - de ti! Macia - deve a relva luzidia Do leito - ser por certo em que me deito. Mas quem, ao pé de ti, quem poderia Sentir outras carícias, Tocar noutras delícias Senão em ti! - em ti! A ti! ai, a ti só os meus sentidos Todos num confundidos, Sentem, ouvem, respiram; Em ti, por ti deliram. Em ti a minha sorte, A minha vida em ti; E quando venha a morte, Será morrer por ti. |
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Acabava ali a terra Nos derradeiros rochedos, A deserta, árida serra Por entre os negros penedos 5 Só deixa viver mesquinho Triste pinheiro maninho. E os ventos despregados Sopravam rijos na rama, E os céus turvos, anuviados, 10 O mar que incessante brama... Tudo ali era braveza de selvagem natureza. Aí, na quebra do monte, Entre uns juncos malmedrados, 15 Seco o rio, seca a fonte, Ervas e matos queimados, Aí nessa bruta serra, Aí foi um céu na terra. Ali sós no mundo, sós, 20 Santo Deus! como vivemos! Como éramos tudo nós E de nada mais soubemos! Como nos folgava a vida De tudo o mais esquecida! 25 Que longos beijos sem fim, Que falar dos olhos mudo! Como ela vivia em mim, Como eu tinha nela tudo, Minha alma em sua razão, 30 Meu sangue em seu coração! Os anjos aqueles dias Contaram na eternidade: Que essas horas fugidias, Séculos na intensidade, 35 Por milénios marca Deus Quando as dá aos que são seus. Ai! sim, foi a tragos largos, Longos, fundos, que a bebi Do prazer a taça: - amargos 40 Depois... depois os senti Os travos que ela deixou... Mas como eu ninguém gozou. Ninguém: que é preciso amar Como eu amei - ser amado 45 Como eu fui; dar, e tomar Do outro ser a quem se há dado, Toda a razão, toda a vida Que em nós se anula perdida. Ai, ai! que pesados anos 50 Tardios depois vieram! Oh! que fatais desenganos, Ramo a ramo, a desfizeram A minha choça na serra, Lá onde se acaba a terra! 55 Se o visse... não quero vê-lo Aquele sítio encantado; Certo estou não conhecê-lo, Tão outro estará mudado, Mudado como eu, como ela, 60 Que a vejo sem conhecê-la! Inda ali acaba a terra, Mas já o céu não começa; Que aquela visão da serra Sumiu-se na treva espessa, 65 E deixou nua a bruteza Dessa agreste natureza. |
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Estes Sítios! Olha bem estes sítios queridos, Vê-os bem neste olhar derradeiro... Ai! o negro dos montes erguidos, Ai! o verde do triste pinheiro! 5 Que saudade que deles teremos... Que saudade! ai, amor, que saudade! Pois não sentes, neste ar que bebemos, No acre cheiro da agreste ramagem, Estar-se alma a tragar liberdade 10 E a crescer de inocência e vigor! Oh! aqui, aqui só se engrinalda Da pureza da rosa selvagem, E contente aqui só vive Amor. O ar queimado das salas lhe escalda 15 De suas asas o níveo candor, E na frente arrugada lhe cresta A inocência infantil do pudor. E oh! deixar tais delícias como esta! E trocar este céu de ventura 20 Pelo inferno da escrava cidade! Vender alma e razão à impostura, Ir saudar a mentira em sua corte, Ajoelhar em seu trono à vaidade, Ter de rir nas angústias da morte, 25 Chamar vida ao terror da verdade... Ai! não, não... nossa vida acabou, Nossa vida aqui toda ficou Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro, Dize à sombra dos montes erguidos, 30 Dize-o ao verde do triste pinheiro, Dize-o a todos os sítios queridos Desta rude, feroz soledade, Paraíso onde livres vivemos, Oh! saudades que dele teremos, 35 Que saudade! ai, amor, que saudade! |
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Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. E eu n’alma - tenho a calma, A calma - do jazigo. Ai! não te amo, não. Não te amo, quero-te: o amor é vida. E a vida - nem sentida A trago eu já comigo. Ai, não te amo, não! Ai! não te amo, não; e só te quero De um querer bruto e fero Que o sangue me devora, Não chega ao coração. Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. Quem ama a aziaga estrela Que lhe luz na má hora Da sua perdição? E quero-te, e não te amo, que é forçado, De mau, feitiço azado Este indigno furor. Mas oh! não te amo, não. E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto, De ti medo e terror... Mas amar!... não te amo, não. |
Linhas de Leitura «Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja, a mulher que se ama.», Viagens na Minha Terra, Carlos.
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Anjo És Anjo és tu, que esse poder Jamais o teve mulher, Jamais o há-de ter em mim. Anjo és, que me domina 5 Teu ser o meu ser sem fim; Minha razão insolente Ao teu capricho se inclina, E minha alma forte, ardente, Que nenhum jugo respeita, 10 Covardemente sujeita Anda humilde a teu poder. Anjo és tu, não és mulher. Anjo és. Mas que anjo és tu? Em tua fronte anuviada 15 Não vejo a c'roa nevada Das alvas rosas do céu. Em teu seio ardente e nu Não vejo ondear o véu Com que o sôfrego pudor 20 Vela os mistérios d'amor. Teus olhos têm negra a cor, Cor de noite sem estrela; A chama é vivaz e é bela, Mas luz não têm. - Que anjo és tu? 25 Em nome de quem vieste? Paz ou guerra me trouxeste De Jeová ou Belzebu? Não respondes - e em teus braços Com frenéticos abraços 30 Me tens apertado, estreito!... Isto que me cai no peito Que foi?... - Lágrima? - Escaldou-me... Queima, abrasa, ulcera... Dou-me, Dou-me a ti, anjo maldito, 35 Que este ardor que me devora É já fogo de precito, Fogo eterno, que em má hora Trouxeste de lá... De donde? Em que mistérios se esconde 40 Teu fatal, estranho ser! Anjo és tu ou és mulher? |
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Barca Bela Pescador da barca bela, Onde vais pescar com ela, Que é tão bela, Ó pescador? Não vês que a última estrela No céu nublado se vela? Colhe a vela, Ó pescador! Deita o lanço com cautela, Que a sereia canta bela... Mas cautela, Ó pescador! Não se enrede a rede nela, Que perdido é remo e vela Só de vê-la, Ó pescador! Pescador da barca bela, Inda é tempo, foge dela, Foge dela, Ó pescador! |
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